Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007

A (relativa) beleza dos cacos

O viajante está sentado no meio do mato, enquanto olha para uma humilde casa a sua frente. (...) O seu dono, Gabriel, sonhou, em 1899, com um anjo que lhe dizia: "Constrói uma casa de cacos." Gabriel começou a coleccionar ladrilhos quebrados, pratos, bibelôts e jarras partidas. "Tudo caquinho transformado em beleza", dizia Gabriel do seu trabalho. (...) Aos 93 anos de idade, colocou o último caco de vidro. E morreu. O viajante acende um cigarro; fuma em silêncio. (...) Olha para os cacos, reflecte na sua própria existência.

Também ela - como a de qualquer pessoa - é feita de pedaços de tudo o que se passou. Mas, em determinado momento, estes fragmentos começam a tomar forma. E o viajante relembra um pouco do seu passado, vendo os papéis no seu colo. Ali estão pedaços da sua vida; situações que viveu, trechos de livros que recorda sempre, ensinamentos do seu mestre, histórias dos amigos, fábulas que algum dia lhe contaram. Ali estão reflexões sobre o seu tempo e sobre os sonhos da sua geração. Da mesma maneira que um homem sonhou com um anjo e construiu a casa que está diante dos seus olhos, ele tenta ordenar estes papéis - para compreender a sua própria construção espiritual.

"Maktub", Paulo Coelho


Tanto tempo já passou desde o inicio deste blog e, apesar de ter uma ideia do que o seu nome representava - o nome foi escolhido pela Ana -, ainda não tinha sido capaz de o descrever ou verbalizar da melhor maneira. Ao ler estas linhas do inicio do livro do Paulo Coelho, senti imediatamente que era exactamente isto, que aqui estava uma descrição perfeita do propósito deste blog. Acontece-me muitas vezes esta situação, sei para mim o significado, mas não sou capaz de o transmitir da melhor maneira aos outros e às vezes nem a mim próprio. Daí o meu espanto sempre que reconheço nas palavras fortuitas dos outros algo importante para mim.

Mas depois isto ficou a ruminar na minha cabeça desde ontem. Os "cacos" começaram a ter uma conotação negativa, de lixo, de restos sem utilidade, de material de recurso, de destroços. E isso eu já não quero, não quero que a minha existência seja apenas a tentativa de junção das lembranças das desgraças passadas na forma daquilo a que chamamos experiência. Quero acreditar que a experiência deve ser mais do que isso. Quero acreditar que os cacos fazem parte da vida, mas o principal são os materiais novos, em primeira mão, inteiros, acabados de sair da fábrica. Parece-me doentia esta ideia de ocupar uma vida a construir uma casa feita de cacos. Acho um esforço memorável se não existir outra maneira de o fazer, como forma de resistência às adversidades que a vida coloca no nosso caminho, mas a procura deliberada e obsessiva de cacos para acrescentar à estrutura da casa não me parece saudável. Às tantas, essa procura torna-se o objectivo único da vida e deixamos passar ao lado todas as outras coisas boas. No fim, pode resultar uma casa muito bonita para quem cá fica para a ver e admirar, mas o que é que dela retira a pessoa que passou todo o seu tempo a construi-la?

No entanto, isto já me parece uma deturpação do significado das palavras do autor provocada pelos meus receios e medos. Na realidade, a metáfora dos cacos diz apenas respeito aos fragmentos da nossa memória, às nossas recordações, que são bocados soltos da nossa vida. Não me parece que os pedaços da vida que o autor refere sejam apenas os destrutivos ou os maus momentos. E por isso, quero acreditar que sim, que construir catedrais a partir do entulho das nossas memórias, que partilhar as nossas reflexões pode ser uma experiência válida e positiva, um passo na compreensão do nosso edifício humano.
publicado por vmlf às 10:44
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1 comentário:
De anatcat a 24 de Janeiro de 2007 às 14:45
é isso vmlf

(a alegria de partilhar as coisas mais pequenas, mais simples, de menor importância mas que ainda assim sendo fazem parte de nós)

bjs

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